Acordei um dia e não era mais eu. Não me reconheci no espelho, nem na minha caligrafia e nem no meu sotaque.
Acordei um dia e vi que as paredes do meu quarto, antes bege, eram verdes agora. Não reconheci meu quarto e ao descer as escadas para a sala (existiam escadas na minha antiga casa?) a casa não era mais a mesma.
Acordei um dia e que roupas estranhas eu estava usando…
Acordei um dia e meu cachorro não me reconheceu.
Cadê meus olhos, cadê minhas mãos, cadê
minha voz?
Saí à rua a procura de mim, desesperado a procura de eu, a procura de alguém que me abandonou dormindo e fugiu sem deixar pistas em uma lugar agora estranho de mim mesmo.
Andei por ruas desertas de mim (cadê eu?), olhei nos olhos dos outros a procura dos meus (cadê mim?), conversei com pessoas a procura da minha voz.
Não perdi parte de mim. Perdi o todo de mim. O brilho da alma, a altivez no sorriso, a força no combate e a alegria de estar no campo de batalha.
Eu levei de mim mesmo a confiança nas pessoas, o emprego estável, a identidade, a paixão, o escudo e a espada.
Esse mim fugitivo deixou apenas cansaço e olheiras, desconfiança e desamor e uma vontade de chorar que foge às minhas forças.
Agora durmo todas as noites com um estranho de mim mesmo. Anunciei em achados e perdidos nos jornais, em seções na TV, em redes sociais e supliquei que se alguém me encontrasse me devolvesse o mais rápido possível.
Existe uma criança doente, diziam os textos anunciando a minha busca, que não come e não vai mais a escola desde que mim (desde que eu?) se foi (me fui?). Pede-se encarecidamente que se alguém encontrar a mim vagando por aí que devolva. Não sei se eu posso oferecer recompensas. Assim que eu me encontrar verifico minha conta bancária.
Luto com muita dificuldade para me encontrar de novo e quem sabe uma alma boa me encontre e me devolva a mim para que eu possa matar essa saudade de mim mesmo. E para sempre ficar junto a eu.